As funções do jovem aprendiz parecem um detalhe de organização do trabalho, até o dia em que uma tarefa fora do programa vira prova em um processo. É o que mostra um caso recente julgado pelo TRT da 2ª Região, que anulou um contrato de aprendizagem justamente por causa do que o jovem fazia no dia a dia.
Por isso, este texto parte desse caso para mostrar onde fica o limite e quais perguntas o gestor deve fazer antes de passar uma tarefa ao aprendiz.
As funções do jovem aprendiz precisam estar previstas no programa de aprendizagem e ligadas à formação do jovem. Tarefas fora desse escopo, perigosas, insalubres ou em horários que atrapalhem a escola podem descaracterizar o contrato e expor a empresa a autuações e a ações na Justiça.
As funções do jovem aprendiz no caso julgado pelo TRT-2
O caso foi analisado em um artigo do advogado trabalhista Cesar de Andrade Filho, publicado em 7 de outubro de 2026. Uma empresa contratou um trabalhador como aprendiz para atividades administrativas. Na prática, porém, ele também cuidava de tarefas operacionais, como conectar e desconectar contêineres de tomadas elétricas e trocar peças.
A primeira instância havia julgado o pedido improcedente. No entanto, o TRT-2, no processo 1000060-94.2023.5.02.0445, declarou nulo o contrato de aprendizagem e reconheceu o vínculo de emprego. Segundo o artigo, a prova oral e o laudo pericial confirmaram que aquelas tarefas não correspondiam ao contrato. Os autos voltaram à primeira instância para a análise dos demais pedidos, e o resultado final não foi informado.
Ou seja, o problema não estava na contratação, e sim na distância entre o que o contrato previa e o que o jovem realmente fazia.
Por que o aprendiz tem limite de tarefas
A CLT define o contrato de aprendizagem como um contrato de trabalho especial, voltado à formação técnico-profissional metódica do jovem. Assim, as atividades práticas precisam acompanhar o que ele aprende no curso, em tarefas de complexidade progressiva. O texto sobre o curso teórico do jovem aprendiz explica por que essa teoria é metade do vínculo.
Quando a empresa usa o aprendiz para cobrir uma vaga ou uma ausência, o contrato deixa de cumprir sua finalidade formativa. É nesse ponto que o risco aparece, tanto na fiscalização quanto em um eventual processo.
O que a lei veda para menores de 18 anos
Quando o aprendiz tem menos de 18 anos, as funções do jovem aprendiz sofrem restrições adicionais. A CLT proíbe o trabalho noturno, entre 22h e 5h, e o trabalho em locais e serviços perigosos, insalubres ou prejudiciais à formação e à moralidade do jovem. Além disso, os horários não podem impedir a frequência à escola.
Para os serviços perigosos e insalubres, a referência é a Lista das Piores Formas de Trabalho Infantil, a Lista TIP, prevista no Decreto 6.481/2008. Em outras palavras, uma tarefa que parece comum na rotina da empresa pode estar na lista, e a conferência precisa acontecer antes. O conteúdo sobre combate ao trabalho infantil detalha o que a lei permite em cada idade.
O que faz um jovem aprendiz no dia a dia
Muita gente pergunta o que faz um jovem aprendiz de verdade dentro da empresa. Em geral, ele executa tarefas de apoio ligadas ao curso, como organizar documentos, atender chamadas, lançar dados e acompanhar rotinas do setor. Além disso, essas atividades alternam com a parte teórica e crescem em complexidade aos poucos, como prevê o art. 428 da CLT. Ou seja, o que o aprendiz faz precisa ensinar, e não apenas suprir uma vaga.
Sinais de que a rotina do aprendiz saiu do trilho
Nem todo desvio nasce de má-fé. Em geral, ele surge aos poucos, a partir de pedidos pequenos que ninguém registra. Por isso, vale observar alguns sinais de desvio nas funções do jovem aprendiz.
- O jovem passou a cobrir a ausência de um colega ou a assumir uma rotina que era de outro profissional.
- Ninguém consegue explicar qual parte do programa de aprendizagem justifica aquela tarefa.
- As atividades envolvem máquinas, produtos químicos ou ambientes que o programa não previa.
- O horário do trabalho começou a conflitar com as aulas teóricas.
- O tutor deixou de acompanhar o jovem, e as tarefas passaram a ser dadas por várias pessoas sem critério.
Como manter as funções do jovem aprendiz dentro do programa
A boa notícia é que o desvio se previne com organização simples. O artigo que serviu de base ao caso recomenda conferir se as atividades correspondem ao programa, acompanhar a alternância entre teoria e prática, manter registros de supervisão e avaliar qualquer mudança de tarefa antes de aplicá-la.
Na prática, isso significa deixar a lista de atividades do aprendiz documentada, indicar um tutor responsável e levar à entidade qualificada qualquer necessidade nova da equipe. Assim, a empresa ganha o apoio do jovem sem comprometer o contrato. Para estruturar esse controle, veja o conteúdo sobre compliance no programa de aprendizagem e o texto sobre mentoria interna para jovens aprendizes.
Como o ISBET acompanha a rotina do aprendiz
Na página de soluções do ISBET, o Programa Jovem Aprendiz é descrito como uma aprendizagem profissional conectada à realidade da empresa. O processo começa pelo entendimento, com o diagnóstico da necessidade da empresa e da oportunidade de aprendizagem, e segue por seleção, formação e acompanhamento ao longo de toda a jornada.
Além disso, o ISBET oferece apoio ao RH na organização do programa. Para planejar as vagas, conheça a página Contrate aprendizes ou fale com o ISBET. Já se você é jovem e quer começar na aprendizagem, veja as vagas em Quero uma vaga.
Perguntas frequentes
O que faz um jovem aprendiz?
Ele realiza tarefas de apoio previstas no programa de aprendizagem, alternadas com a formação teórica e com complexidade crescente. O que não está no programa, ou que substitui um profissional, é desvio.
Quais funções o jovem aprendiz pode exercer?
As que estão previstas no programa de aprendizagem e se ligam ao curso teórico e à formação do jovem. Quem define esse escopo é o programa conduzido pela entidade qualificada, e a empresa deve segui-lo na prática.
O jovem aprendiz pode cobrir a falta de um colega?
Só se a tarefa estiver dentro do programa e for compatível com a formação. Na prática, assumir o posto de um profissional ausente costuma ser sinal de desvio, e por isso vale evitar esse tipo de pedido.
O jovem aprendiz pode trabalhar à noite?
Para menores de 18 anos, o trabalho noturno, entre 22h e 5h, é proibido. Já para quem tem 18 anos ou mais, o ideal é confirmar a regra aplicável com o jurídico e com a entidade qualificada. O texto sobre jornada de trabalho do jovem aprendiz ajuda a organizar a escala.
O que acontece se a empresa desvia o aprendiz de função?
Ela pode ser autuada na fiscalização e ter o contrato questionado na Justiça, como no caso do TRT-2 citado neste texto. Como as consequências dependem de cada situação, vale consultar o jurídico antes de qualquer mudança de tarefa.
Adriano
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